segunda-feira, agosto 10, 2009

A contemplar.

"Então pensou que, por incompriensivel que a vida seja, provavelmente atravessamos o unico desejo de regressar ao inferno que nos gerou, e de habitar ao lado de quem, uma vez, nos salvou desse inferno. Tentou perguntar a si mesmo de onde viria aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu que não tinha respostas. Entendia apenas que nada é mais forte que esse instinto de voltarmos onde nos fizeram em pedaços, e de repetir esse instante ao longo dos anos. Pensando apenas que nos salvou uma vez poderá depois fazer sempre. Num longo inferno idêntico áquela de onde vimos. Mas subitamente clemente. E sem sangue.
O letreiro desfiava lá fora o seu rosário de luzes vermelhas. Pareciam os clarões de uma casa em chamas.
Nina encostou a fronte ás costas de Pedro Cantos. Fechou os olhos e adormeceu."

E assim termina!

Alessandro Baricco, (Tradução: Assis Pacheco), Sem Sangue, Dom Quixote, 2002

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